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Sabores da Amazônia

Globo Repórter - Rede Globo

Uma introdução as frutas mais comuns da Amazônia.

Matéria exibida no Globo Repórter em Junho de 2009.

Tucumã é rico em vitamina A

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Farinhas de frutas ajudam a curar a anemia das crianças em Manaus

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Açaí é tão saudável quanto azeite de oliva

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Cogumelos podem reduzir o colesterol

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Frutas da Amazônia combinam com diversos pratos

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Tucumã é rico em vitamina A

Fruto vira hambúrguer e ainda gera energia elétrica. Tucumã é ingrediente do x-caboquinho, sucesso em Manaus. Caroço vira biodiesel.

DANIELA ASSAYAG Manaus (AM)

Em tempos de cheia, os rios da Amazônia sobem até a copa das árvores. Cada braço de rio procura uma fresta e avança sobre os igarapés. Cada curva de rio revela uma parte desse labirinto verde. Se fosse um cheiro, seria ar puro. Mas se tivesse gosto, qual seria? Afinal, a Floresta Amazônica tem sabor de quê? Buriti, cubiu, camu-camu, pupunha.

“Comemos pupunha cozida, acompanhada de café e mel. É muito usada caramelada, como entrada no almoço”, explica uma comerciante.

A professora Lilian Pacheco e o músico Walmir Paulo chegaram da Bahia para conhecer as frutas da floresta.

“Estamos doidos com tantas coisas. Dá vontade de provar de tudo”, diz Lilian. “Nós somos um país muito rico. As pessoas são pobres de dinheiro, mas, em termos de mercadoria, nós temos exuberância”, comenta a professora.

Você já provou dessas frutas? Há quem acredite que, além de muita vitamina, essas preciosidades têm o poder de transformar o futuro da região Norte. Você já ouviu falar em tucumã? É do tamanho de um limão. E o gostinho… “É muito saborosa. O tucumã tem diferentes formatos, cores e sabores. É difícil descascar. A parte comestível é constituída de apenas 20% de polpa. Com apenas três frutos, as necessidades em termos de vitamina A serão plenamente contempladas, considerando a recomendação para um homem adulto, por exemplo”, diz a nutricionista Lúcia Yuyama, coordenadora de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Pode dar trabalho, mas vale a pena.

O tucumã mudou a vida da família da comerciante Priscila Silva Carvalho. “Eu e minha mãe descobrimos as receitas. A maior parte foi ela quem criou”, conta.

Há cinco anos, ninguém comia tucumã. Mas agora os pedidos da freguesia mudaram. O x-caboquinho, então, é um sucesso. O sanduíche é preparado com pão, queijo coalho e lascas de tucumã. Priscila não para. Os pais dela tiravam o sustento da família plantando mandioca. Trabalhavam na casa de farinha. Os cinco filhos de seu Francisco e dona Maria logo começaram a ajudar.

“Eu vendia só o fruto. As pessoas pediam para descascar. Então, começamos a fazer tapioca. Aí, começaram a pedir cafezinho. Depois, começaram a pedir uma mesa para sentar. Aos poucos, o comércio foi crescendo”, lembra Priscila. “Nós somos cinco irmãos, cada um tem um café regional. O carro-chefe é o tucumã”.

Mas de onde vem toda essa riqueza?

“Eu não meço esforços para conseguir o tucumã. Onde disserem que tem tucumã – pode ser em outro município – eu vou atrás! Vou à caça ao tucumã!”, diz Priscila.

E o Globo Repórter também vai. A equipe entra na floresta em busca dos frutos da Amazônia. E quem nos guia é Priscila. Em cada voadeira, uma equipe técnica completa. Juntos, são nossos olhos na mata. Logo encontramos jenipapo ao alcance de nossas mãos. A árvore chega a medir mais de 14 metros, mas as águas estão altas, e o banquete é para todos.

“Muitas árvores produzem frutinhos que servem de alimento para os peixes. É a perfeição da natureza”, diz Priscila.

Ainda percorremos um longo trecho de rio à procura dos tucumãs nativos. São muitos buritis, até que finalmente clareia a mata e chegamos ao tucumãzal.

“A área é só de tucumã nativo. Nenhum pé foi plantado pelo homem. Tudo foi a natureza que se encarregou de plantar”, conta Priscila.

Quem cuida desse pedaço de floresta é o agricultor Antônio Mafaldo. Acompanhamos os passos rápidos de seu Antônio e logo nos embrenhamos na mata fechada. Ele só busca tucumã nessa área quando não há outro jeito, porque as árvores são muito altas, com cerca de 30 metros de altura. Ele chega a ficar dias na floresta. A palmeira que guarda o tucumã é cheia de espinhos. Uma proteção natural para esse tesouro da Amazônia, que seu Antônio encontrou quando chegou à região, há 40 anos.

“Havia duas árvores de tucumã. Acho que é obra da natureza mesmo, porque nenhum pé foi plantado. Demos sorte, graças a Deus. É como uma caderneta de poupança: nós apenas zelamos pelas árvores. Depois, é só tirar e vender”, explica o agricultor.

Quando precisa de dinheiro, ele vai até a floresta e coleta os frutos maduros. Priscila sempre faz encomendas. Seu Antônio conta que chega a retirar 8 mil tucumãs em uma semana.

A família de Priscila também produz tucumã. São concorrentes de seu Antônio, mas tem mercado para todo mundo. “Foi do tucumãzal de seu Antônio que saiu a semente para nós plantarmos o nosso tucumã”, conta Priscila.

Hoje, Priscila já tem como garantir o tucumã de cada dia. Graças ao pai dela, o agricultor Francisco Carvalho. Ele acreditou que era possível e começou a única plantação de tucumã que se tem notícia na região. Não é fácil arrancar desse sábio agricultor qual é a sua fruta preferida. “Tudo o que eu plantei me agrada. Gosto do fruto do meu trabalho”, afirma.

Difícil mesmo é tirar o tucumã lá do alto. É preciso usar uma vara com uma espécie de foice na ponta. Os espinhos são grandes. “Só não tem espinho no fruto”, diz Priscila.

É preciso ter braços fortes. Cada cacho chega a ter 150 frutos. Mas, você já sabe, a maior parte desta fruta é caroço.

“O caroço é jogado fora. Só no meu café, consumo 10 mil frutos. Fora o que é vendido na feira e nos outros cafés da manhã que existem na cidade. É muito caroço de tucumã jogado fora”, diz Priscila.

Poucos sabem o que têm nas mãos. “O volume de caroço que se joga fora em Manaus é grande, a ponto de já se ter um cemitério de caroços de tucumã em certas comunidades onde milhares de famílias vivem de descascar e despolpar o fruto. Aquilo é dinheiro jogado fora”, constata Roberto Figliuolo, que estuda o tucumã há 20 anos no Inpa e comprovou: dessa fruta, se aproveita até o caroço. “O mais importante no tucumã é uma cadeia produtiva sustentável e integral. Isso significa que tudo no tucumã é aproveitado”.

O caroço, que todo mundo joga fora, agora se descobriu, pode virar combustível. É o biodiesel de tucumã. Quem diria que com a energia de uma fruta é possível acender uma lâmpada, ligar a televisão e, o que antes era apenas o resto da fruta, pode transformar a vida do homem da floresta.

“Não se pode pensar em melhorar o índice de desenvolvimento humano de qualquer pessoa hoje vivendo na Terra se não começar pela energia elétrica. Com energia elétrica em uma comunidade com 60 famílias e um monitor de televisão, podemos educar a população”, diz Roberto Figliuolo.

O biodiesel de tucumã é testado em uma miniusina. A polpa já é uma delícia e ainda pode ser transformada em azeite. Com a polpa, é possível fazer óleo para salada. E, com o caroço, acender a luz da cozinha. A casca pode virar ração. Do caroço, se tira a amêndoa, a parte branca, para fazer o biodiesel. Também serve para fazer sabonetes esfoliantes. E o que sobra ainda poderia alimentar muito fogão à lenha. Ou seja, em vez de usar madeira para cozinhar, Priscila poderia aproveitar essa parte do tucumã para fazer a brasa.

“Serve para fazer pizza, churrasco. As pessoas passariam a comprar carvão de tucumã e não mais feito de toras de madeira. É o carvão corretamente produzido”, diz Roberto Figliuolo.

Com a quantidade de tucumã que Priscila descasca por dia, até a cozinha dela poderia ser autosustentável.

“Eu vou na floresta e não gasto um tostão, porque o tucumãzeiro já está plantado, produzindo centenas de frutos. As árvores dariam emprego e renda imediata para o homem da floresta. E a polpa seria transportada bem acondicionada, em uma condição muito melhor do que a que temos hoje em Manaus”, diz Roberto Figliuolo.

Em cada esquina da cidade as barraquinhas de x-caboquinho são um sinal de que essa frutinha chegou da floresta para ficar. E se depender da quantidade de caroço, essa ideia iluminada vai dar certo. Veja como preparar arroz de tucumã

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Farinhas de frutas ajudam a curar a anemia das crianças em Manaus

Coloridas e saborosas, elas enriquecem a merenda e garantem energia para a garotada.

DANIELA ASSAYAG Manaus (AM)

No céu de Manaus, uma aquarela de cores vivas. O dia amanhece e já se vê a fartura de uma região naturalmente deliciosa. Em Belém, a pescaria foi boa. Ingredientes frescos para uma alimentação perfeitamente saudável. Também é um prato cheio para os pesquisadores. Uma generosa obra-prima da natureza.

Assim como o pintor, o cientista também trabalha com uma escala de cores. Se em um quadro a mistura de todas elas deixa a pintura mais bonita, em um cardápio, cores variadas significam mais saúde. Quanto mais forte o tom, maior a quantidade de vitaminas e nutrientes. E, assim, brincando, comer frutas, além de saudável e colorido, pode ser também muito divertido.

Foi isso que aconteceu em uma creche. Já que farinha no prato é um sucesso na região, os pesquisadores resolveram balancear as refeições da garotada com frutas de todas as cores em pó. Açaí, camu-camu e pupunha são, respectivamente, roxo, rosa e laranja.

“É preciso trabalhar com as cores, porque, normalmente, o ser humano consome com os olhos. Consideramos o hábito alimentar da população local, que é basicamente o consumo de peixe aliado à farinha de mandioca. Por que não transformar esses frutos em um produto que vá de encontro ao hábito alimentar da população, ou seja, farinhas?”, diz a nutricionista Lúcia Yuyama, coordenadora de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Farinha feita de fruta. Os pesquisadores explicaram que os exames de sangue das crianças indicavam que elas estavam no limite da anemia.

“Lamentavelmente, o quadro de desnutrição persiste na região Norte. A natureza nos oferece espécies frutíferas riquíssimas em energia”, diz Lúcia Yuyama.

Que contradição: na floresta, há frutos, e nos rios, peixes, que nem sempre chegam à mesa das pessoas que vivem na região.

“Esperamos que a população consuma na sua plenitude os alimentos oriundos da floresta ou os naturalmente presentes no fundo de quintal”, diz Lúcia Yuyama.

“Ela só queria comer macarrão instantâneo. Depois desse projeto, mudou totalmente e já come tudo o que é colorido”, comemora a mãe de uma menina.

Resultado: crianças cheias de energia e muita saúde. Que farinha valiosa! No Inpa, a pupunha vira ouro em pó. Mas não é só no laboratório que o milagre acontece.

“A farinha de pupunha pode ser feita no tacho de farinha de mandioca, da mesma forma com que os ribeirinhos fazem”, diz a pesquisadora do Inpa Jerusa Andrade. Basta lavar e cozinhar os frutos. A água em que a pupunha foi cozida fica laranja. Um caldo delicioso para uma boa sopa.

O óleo também fica separado. Óleo bom, que também tem grande valor nutricional. A pupunha cozida é triturada e, depois de seca, vira mais uma farinha.

“A desidratação é um dos métodos de conservação de alimentos. Além de conservar, ela reduz o volume, o que facilita a estocagem e a comercialização”, diz Jerusa Andrade.

E a desidratação da fruta pode até ser feita em casa. “É só bater no liquidificador que ela vai ficando fininha”, ensina a nutricionista Tânia Batista, pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A farinha de pupunha chegou até uma maternidade de Manaus pelas mãos de nutricionista Tânia. Ela queria saber se a vitamina A, presente na farinha de pupunha, passa através do leite materno para os bebês.

“Nós descobrimos que a concentração de vitamina A aumentou no leite das mães que consumiam farinha de pupunha. E aumentou relativamente bem, em torno de 30%”, conta Tânia.

Basta a mãe comer 20 gramas de farinha por dia todo dia. A medida equivale a uma colher de sopa. São pequenas doses de um santo remédio. Tânia explica a importância da vitamina A: “Serve para que a criança enxergue bem à medida que vai crescendo e também para proteger contra infecção intestinal e pneumonia, porque ela protege toda a mucosa intestinal e respiratória da criança.

E essa maravilha dourada pode ser usada para fazer qualquer tipo de comida, salgada ou doce.

“Em geral, os alimentos ricos em vitamina A devem fazer parte da alimentação de qualquer mulher que esteja amamentando”, orienta Tânia Batista.

Algumas mães participaram da pesquisa. Elas comiam a pupunha, doavam leite para a UTI neonatal, e os filhos delas também se fartaram com o leite enriquecido de vitamina A natural.

Os bebês nem parecem que nasceram prematuros. Logo vão estar prontos para o próximo prato. Peixe sem espinha garante proteína para crianças Hora do lanche na escola.

“Tudo é feito com peixe”, conta a merendeira Raimunda Lucimar de Oliveira.

As receitas só fizeram sucesso porque o peixe chega até à creche sem espinha. A pesquisa, que começou no Inpa, levou os peixes da Amazônia para a merenda escolar.

“Antes, nem serviam peixe, porque era difícil tirar as espinhas”, conta a merendeira.

O sonho dos pesquisadores é ver os peixes da Amazônia chegar à mesa dos brasileiros. Desenvolveram o picadinho de peixe e a farinha de peixe. Quem podia imaginar piranha da Amazônia em pó?

“Nós imaginamos. É um alimento altamente protéico. Todo mundo pode comer, sobretudo a criança em idade escolar. Pode ser adicionada para fazer bolinho, sopa, suflê. É fácil de ser transportada e armazenada, porque toda a água foi retirada”, diz o pesquisador do Inpa Edson Lessi.

O picadinho pode ser congelado. “Quando consomem picadinho de peixe na merenda escolar, as crianças ingerem basicamente proteína. Mas o peixe também tem uma certa porcentagem de gordura boa. E essa gordura tem ácidos graxos essenciais para o desenvolvimento das crianças. Faz bem para desenvolver o cérebro”, explica o engenheiro de pesca Rogério de Jesus, do Inpa.

O pessoal da merenda caprichou e fez três pratos diferentes. Com a visita do Globo Repórter, os estudantes de uma escola pública de Manaus foram apresentados a novas receitas muito coloridas. Quantas cores, quantos sabores. Logo a noite cai. Hora do jantar. Hora de pintar um prato novo. Volta do topo Volta ao topo


Açaí é tão saudável quanto azeite de oliva

Fruto previne o câncer, diabetes e doenças cardíacas.

DANIELA ASSAYAG Igarapé-Miri (PA)

Um horizonte de sol e de chuva. Mais além, para onde quer que se olhe, temos apenas uma certeza: Igarapé-Miri, no Pará, é muito quente. O município fica a duas horas de Belém. O guarda-chuva faz sombra enquanto a chuva não vem. Assim como as águas da Amazônia, os frutos também têm seu tempo: a safra e a entressafra.

Nesta época do ano, chove muito na região. O que se produz lá, ou você conhece, ou já ouviu falar: açaí. Tem açaí o tempo todo. Uma chuva de açaí.

Olhando à primeira vista, não dá para imaginar o trabalho que dá coletar o açaí. Para buscar o cacho lá em cima, só usando a peconha. Um peconheiro experiente como Marcelo ??? chega a subir e descer todos os dias mais de 200 palmeiras. Mas nem sempre foi assim. Antes, eles derrubavam a árvore, para extrair só o palmito. até que descobriram um jeito diferente de enxergar a floresta.

O céu é todo rendado de palmeiras. Deixando as árvores de pé, os frutos poderiam render muito mais para os ribeirinhos. Só que eles não sabiam como transformar o açaí em dinheiro. Há dez anosos os moradores de Igarapé-Miri procuraram a Universidade Federal do Pará (UFPA) e pediram ajuda.

O professor Ailton Pires de Lima trabalha no Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (Poema). Não é fácil rimar desenvolvimento sustentável com preservação da natureza. Mas foi o que aconteceu na região.

Os agricultores João Serrão de Miranda e Raimunda da Costa Almeida, a dona Raimundinha, começaram a fazer a ponte entre a floresta, a universidade e a mesa de muitos brasileiros. Eles levaram a equipe do Globo Repórter até a única plantação de açaí que produz na entressafra.

“Há dez anos, lata de açaí valia R$ 0,50”, lembra dona Raimundinha.

“Como o preço era muito baixo, surgiu a idéia de construir uma pequena fábrica de beneficiamento. A experiência valeu a pena”, afirma seu João.

“Nós entendemos que o primeiro problema deles é que estavam muito presos aos atravessadores. Alguns comerciantes levavam o produto deles sem nenhuma garantia. Muitas vezes, diziam que não conseguiam comercializar e pagavam o que queriam”, lembra o professor Ailton.

“Na pequena indústria, começamos a vender a lata por R$ 4,50. Isso nos ajudou muito e nos motivou ainda mais. Criamos uma cooperativa. Depois veio outra, e mais outra. Hoje temos várias no município”, comemora seu João.

Já são 22 mil famílias trabalhando com o açaí na região. As cooperativas se organizaram para beneficiar os frutos e conseguir preços melhores. O agricultor Marco Noda herdou a plantação do pai dele. “Temos cem mil pés de açaí. Com isso, dá para abastecer o mercado durante seis meses, na entressafra. Nossa forma de agregar valor ao açaí foi fazer a mudança da safra. Manejar tudo para a entressafra compensa”, diz.

Um canal foi aberto para facilitar o transporte da produção. “No verão, época em que não chove tanto, dá para trazer. Mas quando fica muito enlameado, não dá”, conta Marco. As canoas chegam carregadas. “Tem bastante mercado. Todo mundo come açaí”, conta o agricultor.

É o arroz com feijão do Pará: açaí, peixe e farinha. Na hora do almoço, o Mercado do Ver o Peso, em Belém, fica lotado. Ao contrário do que se pensava, açaí não combate a anemia, mas tem muitas outras propriedades. E para quem só pensa nas calorias de um bom pote de açaí… “Um copo contendo aproximadamente 100ml equivale a 67 calorias. Ou seja, é um fruto que contribui com o valor energético, sem dúvida. Mas, por outro lado, a quantidade de fibra, em torno de 6,7%, também é extremamente importante”, ressalta a nutricionista Lúcia Yuyama, coordenadora de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

E tem mais: é antioxidante. “Segundo nossas pesquisas, tomar aproximadamente 100ml de açaí por dia é equivalente à proteção de um copo de vinho, por exemplo. O perfil de gorduras do açaí é muito parecido com o do óleo de oliva, que é reconhecido por ter um perfil propício para a saúde. O açaí ajuda a prevenir, por exemplo, doenças que estariam relacionadas ao coração. Nós teríamos que pensar sempre no número de calorias que seriam ingeridas durante o dia. Se você tiver uma dieta balanceada, com número máximo de calorias, poderia utilizar o açaí, limitando uma quantidade diária”, diz o professor Jesus N.S. de Souza, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da UFPA.

Para saber o que de fato nosso organismo aproveita dessa fruta, um grupo de pesquisadores testou o que acontece quando comemos açaí.

“Cada voluntário consumiu 500ml”, conta a engenheira de alimentos da UFPA Camila Bastos.

Durante 24 horas eles fizeram exames de sangue e urina. E os resultados foram animadores.

“A quantidade absorvida é pouca em relação ao que tem no açaí. Mas essa quantidade é suficiente para beneficiar a saúde. Podemos prevenir doenças cardiovasculares, câncer, diabetes”, revela Camila Bastos.

Em forma de polpa, o açaí já ganhou meio mundo.

“Há dez anos, não imaginávamos que o açaí fosse chegar tão longe. Mas é claro que esperávamos que isso acontecesse”, diz dona Raimundinha.

No Rio de Janeiro, o açaí é consumido com banana e granola.

“Mandamos polpa para o Rio e para o Havaí”, conta seu João.

“No Havaí, eles devem comer açaí com hambúrguer”, brinca o professor Ailton.

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Cogumelos podem reduzir o colesterol

Além disso, eles têm alta quantidade de proteína, vitaminas, sais e fibras, que ajudam bastante a digestão dos alimentos.

DANIELA ASSAYAG Reserva Ducke (AM)

A equipe do Globo Repórter foi procurar uma grande novidade, escondida entre as árvores de uma imensidão verde. Pode passar despercebida por nós de tão pequenina

diante da grandiosidade da Amazônia. É como procurar agulha no palheiro. Mas, no vídeo ao lado, você vai conseguir ver. Finalmente, encontramos. São os cogumelos da floresta.

Um grupo de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) tem uma boa notícia: esses cogumelos são comestíveis. A certeza de que não são venenosos vem dos estudos feitos em laboratório. Os pesquisadores coletam pequenas amostras dos fungos que eles encontram na mata.

Para entrar na base do Inpa, é preciso cruzar uma estrada de terra. Os cogumelos são encontrados bem na beira do barranco. Parece fácil, mas o trabalho de pesquisa está só começando.

A passagem se estreita, e temos a sensação de que somos silenciosamente observados, como em uma floresta encantada. Para nós, é difícil achar cogumelo na mata fechada, mas os pesquisadores já estão com os olhos treinados. E logo começamos a perceber a presença delicada dessa delícia amazônica.

“Nesse grupo tem espécies comestíveis, que são de nosso interesse. Mas em se tratando de Amazônia, não podemos pular nenhuma fase de identificação e pesquisa, para não cometermos engano de toxidade. Ainda não conhecemos muito do que temos na Amazônia”, ressalta a bióloga do Inpa Noemia Kazue Ishikawa.

“É muito difícil assumir que é uma espécie comestível sem fazer teste, porque existem algumas espécies venenosas, e é um tipo de veneno muito difícil de tratar. Esse é comestível. Vale a pena estudar. Costumamos brincar que os fungos são um reino esquecido na Amazônia. Porque toda a exuberância da floresta não consegue viver sem os fungos. Eles são responsáveis pela decomposição da matéria orgânica que está no chão”, explica o ecólogo do Inpa Ricardo Braga Neto.

Pouca gente sabe da importância dos cogumelos para manter a floresta saudável e com uma variedade tão grande de espécies. O solo da Amazônia é muito pobre. Por isso, precisa de uma espécie de adubo natural. Quem transforma árvores, galhos e folhas que caíram em nutrientes são os fungos. Não dá para vê-los a olho nu. Só podemos afirmar que os fungos estão no solo por causa do fruto deles: o cogumelo.

“A Amazônia tem muitas espécies com potencial de comestibilidade e de produção em grande escala. E é isso que estamos procurando na floresta. Para o cogumelo fazer parte da mesa dos brasileiros é preciso vencer os desafios da produção, ou seja, passar a condição da floresta para o laboratório, para conseguirmos cultivar esses cogumelos como hoje são cultivados o champignon, o shitake e outros”, diz Noemia Kazue Ishikawa.

É para as estufas que os pesquisadores levam as amostras de cogumelos que encontram na floresta.

“Da floresta, ele vai para a estufa. Esse foi o grande segredo, porque o fungo com o qual estamos trabalhando gosta de temperatura entre 35ºC e 40ºC”, revela a engenheira agrônoma do Inpa Ruby Vargas Islã.

Descobrir a temperatura ideal era o que faltava para o que eles chamam de domesticação do fungo. Só assim foi possível reproduzi-lo em laboratório.

“Antes, o fungo morria. Ele gosta de temperatura alta”, reafirma Ruby.

E como eles gostam de calor e de chuva, a floresta é o ambiente ideal para que eles cresçam e apareçam.

Noemia prepara um refogado com um pouco de alho e cebolinha. “Além de gostosos, os cogumelos têm uma alta quantidade de proteína e baixo índice de lipídio. Além disso, têm outras substâncias que baixam a absorção do colesterol pelo organismo. São indicados para quem tem colesterol alto. E também têm vitaminas, sais e fibras, que ajudam bastante a digestão dos alimentos”, explica a bióloga. “Eu sempre falo que é um segredo da Amazônia. As pessoas passam e não sabem que está ali”, diz Noemia. Volta do topo Volta ao topo


Frutas da Amazônia combinam com diversos pratos

Frutos da Amazônia são ingredientes para diversas receitas. Equipe de pesquisadores da Universidade de Brasília prepara refeição completa com tucumã, castanhas, cupuaçu e açaí.

DANIELA ASSAYAG Belém (PA)

O Mercado do Ver o Peso, em Belém, é mesmo de dar água na boca. O cartão-postal é uma vasta e colorida amostra dos sabores da Amazônia. A famosa castanha, que já foi do Pará e do Brasil, hoje é da Amazônia.

“Tem um alto grau energético, por ser rico em gordura. Mas é uma gordura considerada boa. Duas castanhas equivalem à proteína de um ovo”, diz a nutricionista Ana Paula Oliveira, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A feirante Carmelita Rocha trabalha no mercado há 37 anos e já se acostumou com o espanto de quem vem de longe. “As pessoas perguntam onde eu consigo tudo isso. Eu digo que é aqui na região mesmo. Todos os ribeirinhos vendem fruta para o mercado”, conta.

A maioria das frutas não sai do Norte do país. Até mesmo para investigar o valor nutricional das frutas da Amazônia, os pesquisadores têm que fazer feira.

Ana Paula Oliveira participou das oficinas de culinária regional organizadas em parceria com o Ministério da Saúde, a Universidade de Brasília (UnB) e representantes de vários centros de estudos da região Norte.

Entre as frutas selecionadas, cupuaçu e o ouro negro da Amazônia, açaí. Tudo foi levado para a UnB, onde os pesquisadores que estiveram no Mercado do Ver o Peso vão mostrar como preparar receitas com menos açúcar, sal e gorduras, feitas com as frutas da Amazônia.

“O brasileiro tem consumido poucas frutas. Algumas regiões são carentes de consumo de frutas e isso deve ser estimulado”, diz Ana Paula Oliveira.

Da Amazônia para o coração do Brasil. Em Brasília, o aroma lembra a floresta. A equipe da UnB prepara uma refeição completa. Como prato principal, arroz com tucumã e tambaqui recheado com molho de castanhas e manga. A receita também pode preparada com outro peixe. Para sobremesa, docinho de cupuaçu no ponto de brigadeiro e mousse de açaí feita com mandioca.

“A mandioca faz com que tenhamos a textura do leite condensado. Não temos a gordura do leite condensado, mas temos a mesma característica sensorial, a mesma maciez”, assegura a nutricionista da UnB Verônica Ginani.

Um banquete da Floresta Amazônica até a mesa dos brasileiros.

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